| Dois monges moravam em mosteiros vizinhos e apesar de pertencerem a religiões diferentes eram grandes amigos: um era católico e o outro era budista. Os dois tinham conflitos de idéias, mas nunca haviam se desrespeitado ou cultivado um sentimento de rancor, raiva ou ódio. Certo dia, o sábio católico foi visitar o budista e disse: "Nós possuímos visões religiosas diferentes e apesar disso nunca brigamos realmente. Vamos tentar fazer como a maioria das pessoas e vivenciar um abalo em nossa amizade?" O budista achou a idéia interessante e com grande curiosidade perguntou: "Mas como isso funciona?" O católico respondeu: "Pelo que reparei nas pessoas, parece ser muito simples. Eu vou colocar uma ovelha entre nós e você vai dizer que a ovelha é sua". O budista entusiasmado concordou. O católico trouxe, então, a ovelha e a colocou entre eles. O budista imediatamente com cara de bravo afirmou: "Esta ovelha é minha!" O católico, com indignação, respondeu: "De forma alguma, ela é minha!" O budista, espontaneamente e se esquecendo por alguns instantes do motivo da conversa, sorrindo respondeu: "Bom se é assim, está bem. Ela é nossa!" O católico caiu na gargalhada e disse: "Como pode a maioria dos nossos semelhantes não perceber isso!"
Vivemos em um mundo movimentado por um constante processo de globalização. Isso significa um universo no qual as culturas se aproximam e as sociedades se tornam pluralistas. No caso da nossa sociedade brasileira, não somente a pluralidade de costumes e comportamentos se tornam uma realidade social, mas principalmente a pluralidade de religiões. A religião é para o brasileiro um aspecto importante de seu cotidiano. Porém, da mesma forma que o brasileiro precisa desenvolver um senso crítico em relação aos comportamentos, costumes, estruturas políticas, ele também necessita desenvolver em relação a qualquer religião uma santa criticidade. A fé não pode ser cega. Afinal, uma espiritualidade séria envolve o ser humano por inteiro: individualidade, relações inter-pessoais, estrutura social. Toda expressão de fé verdadeira exige discernimento, senso crítico e principalmente conhecimento. Já dizia Mestre Eckhart: "Para se ter o miolo, é preciso quebrar a casca". Se a fé não for acompanhada de senso crítico e conhecimento ela pode cair em enormes contradições. Esta análise crítica sobre a fé se inicia com a recuperação do significado original do fenômeno religioso. Religião significa re-ligar, reatar algo que já esteve unido e foi rompido. Assim, religião deve ser sobretudo aproximação, convergência. Em outras palavras, a religião que gera desunião, desrespeito, isolamento, marginalização pode ser qualquer coisa, menos religião.
Principalmente para o Cristianismo isso deve estar muito claro. Afinal, a sua tradição essencial está baseada no respeito pleno ao ser humano. São João define o próprio Deus com a palavra "amor" (1 Jo 4,8) e Jesus reafirma a tradição judaica sintetizando os mandamentos da Lei em dois: no mandamento do amor a Deus (Dt. 6,5) o associando imediatamente ao mandamento do amor ao próximo (Mt. 22, 36-40; Mc 12, 28-31; Lc 10, 25-28; Lv. 19, 18). Isso quer dizer que, para o Cristianismo, o amor a Deus só faz sentido se ele se traduzir no amor ao próximo, que é a pedra de toque da justiça. Porém, este amor bíblico não é o amor erótico e muito menos o amor que surge da simpatia, mas sim o "agapé", ou seja, o respeito profundo pelo outro e um engajado interesse por sua felicidade. Não é pelo cumprimento de preceitos cerimoniais ou cultuais que se honra a Deus, mas pelo socorro que se dá ao ser humano na necessidade (Mt 12, 1-8; Mc 2, 23-28; Lc 6, 1-5; 13, 10-17). Nós seremos julgados pelo grau de respeito que possuímos para com o nosso próximo, sobretudo para com o menor de todos (Mt. 26, 31-46) e para com os inimigos (Mt 5, 42-48; Lc 6, 27-35). O Cristo chega a ridicularizar com a parábola do "Bom Samaritano" (Lc 10, 29-37) aqueles religiosos que seguiam os preceitos e não praticavam o amor. Nesta parábola um pagão demonstra mais amor que um sacerdote e um levita. Santo Irineu afirmou que Deus se fez como nós para que possamos nos tornar como Ele. Portanto, religião deve ser um processo de deificação do ser humano, caso contrário é algo perigoso, instrumento de escravidão, exploração ou alienação. Quem se diz religioso deveria, apesar de todos os dogmas de sua religião, afirmar como o místico islâmico Ibn Arabî: "meu coração abriu-se a todas a formas. Ele é um pasto para as gazelas e um convento para os monges cristãos, um templo de ídolos e a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o livro do Corão. Eu pratico a religião do amor; seja qual for a direção na qual suas caravanas avancem, a religião do amor será minha religião e minha fé".
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