Padre Beto


25/08/2010 - 17:33
VIAJAR NA DIREÇÃO ERRADA


O homem estava sentado confortavelmente na cabine de um trem. Era inverno e lá fora fazia muito frio. Todas as vezes que o trem parava em uma estação, o homem colocava sua cabeça para fora da janela com um olhar preocupado e voltava a se sentar. Depois de várias estações, um senhor que estava sentado a sua frente não agüentando mais de curiosidade perguntou ao homem: “Afinal, onde o senhor deseja descer?” O homem, então respondeu: “Na verdade, eu já deveria ter descido há muito tempo. Eu estou viajando na direção contrária ao meu objetivo, pois entrei no trem errado. Porém, aqui está quente e muito confortável!”

Muitas vezes, diante de situações ou ações humanas assumimos uma postura de passividade. Deixamos a vida se desenvolver como ela se encontra. Não temos a coragem de tomar uma iniciativa e permanecemos sem ação. Apesar da chamada “passividade” nos ser cômoda e talvez evitar maiores problemas, na maioria das vezes ela não nos realiza e nos deixa com uma certa dose de inconformidade. Afinal, como passivos espectadores da vida temos a sensação de não realizar aquilo que deveríamos. Porém, este não é o maior perigo da postura passiva diante das situações. O maior problema da chamada passividade é sua capacidade ilusionista. Se refletirmos melhor sobre a postura passiva chegaremos à conclusão de que somos passivos quando recebemos uma modificação da qual não somos a origem. Em outras palavras, ser verdadeiramente passivo é não ser nem o fundamento nem o criador. Assim, sustentamos uma maneira de ser da qual não somos a fonte. Até aqui não há maiores dificuldades. Compreendemos o poder ilusionista da passividade quando descobrimos que, para sustentar a situação, é necessário que eu exista e, por isso, minha existência se situa sempre para além da passividade. Se sou sempre “aquele que foi ofendido” é preciso que eu persevere em meu ser, quer dizer, assuma eu mesmo minha existência como ofendido. Desta forma, aceito, por minha conta, minha ofensa, deixando, portanto, de ser passivo com relação a ela. Daí o ilusionismo oferecido pela passividade: ela é uma forma de mascarar nossa participação, nossa atividade diante de qualquer situação. Em outras palavras, a passividade é uma forma ativa de ser.

Aliás, a passividade é um fenômeno duplamente ativo. Ela se constitui em uma verdadeira relação. Nela encontramos a atividade daquele que atua e a existência, não menos ativa, daquele que padece. A passividade nunca diz respeito somente ao ser do existente passivo. Ela é sempre uma relação de um ser ao outro ser e nunca de um ser ao nada. A postura passiva que posso ter diante de uma situação nunca é uma neutralidade, mas sempre uma relação frente a alguém concreto. Por outro lado, a passividade do paciente exige igual passividade do agente. Quem está construindo a situação e sendo o que chamamos de ativo, está deixando com que o outro permaneça em sua passividade. Passivo no sentido estrito da palavra são objetos sobre os quais nossa atividade se exerce. Neste sentido, o ser humano nunca é passivo, pois ele não é uma coisa. O ser humano é sempre ativo, passivos são sempre os meios que ele emprega e os objetos que utiliza. A postura passiva que assumimos é sempre uma “postura” e como tal ativa. A omissão, o deixar de fazer as coisas é uma ação. Nós é que escondemos nosso consentimento, nossa postura ativa, atrás do discurso do “não envolvimento”, da impossibilidade, da passividade. O que significa, na verdade, brincar com um jogo de palavras e ficar na postura, muitas vezes, agradável, mas não digna, de vítima. 

Por exemplo, aquela velha máxima popular que diz que “o povo possui o governo que merece” é a realidade concreta de quem vive em liberdade democrática. Se os políticos eleitos agem de uma forma que não nos agrada é porque não fazemos nada, ou muito pouco, para que isso deixe de acontecer. Em outras palavras, o povo assume o papel de espectador e assiste comodamente o que acontece no “palco político", mesmo que venha a sofrer e pagar pelo espetáculo. Porém, ser platéia é ser participante de todo o teatro e um participante ativo. Afinal, sem platéia não acontece o show. Não somente na política, mas em qualquer nível de relacionamento podemos esconder nossa responsabilidade atrás de um papel de vítima: na relação consigo mesmo, com o outro e, como no caso da política, na relação com o nosso meio social. Se fazer de vítima não é uma forma de passividade, mas sim uma postura ativa. Podem existir várias razões que expliquem esta chamada “passividade”, mas, de qualquer forma, este estado de ser passivo, na verdade é uma postura ativa que permite ao outro agir. Muitas vezes, ficamos sentados no trem, porque nos é confortável, apesar de sabermos que viajamos na direção errada.

 


Lecom S.A.